20130528

"Se o vento não mudar
Vou dar até sentir
Que há uma razão
Para crer que é bem melhor existir
Eu sei
Não vejo a luz em mim
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar"

volta Manel 

Luz aos cegos.


O primeiro passo em direcção à fertilidade
é dar os olhos à luz
e fazê-la cegar a beleza do mundo.

Assim, na eternidade,
que todos os dias amanhece,
pode o cego acordar descansado
que não vai ver a água escorrer
nem vai ver o vento a desaparecer
nem o fruto a cair
nem o seu amor a partir.


20130418

Les amours imaginaires




há chuva.

a pradaria da utopia

Deixei a relva em que me regozijava à procura do prado do qual nunca vou voltar.
colho as flores e meto-as ao peito para que me tirem da paranóia que sou o mel.

Sou a fome e não o alimento.

20130407

Deste ao velho a chave de casa e ele ocupou-a com toda a sua velhice, com toda a sua desgraça e caduquice.
Arrasto estes pés há anos, isso e este mau cheiro de quem já passou da validade. Corta os pés. Então e o cheiro? Esse só seca com as palavras que não disseres.

20130327

Where is my mind?



Se é ao de leve que me tocas, cidade eu não pertenço a ti, nem a condição nenhuma. O jejum enfraquece-me os ossos que colapsam com os suspiros. De que me serve o amor, quando se estendem braços do chão e me prendem os pés. Se a minha vontade é descalçar-me deles, tu oh cidade, rasgas-me a carne e eu cuspo-te no chão. Não, não vou contigo. Não vou mergulhar na tua luz fria.

20130220

Faço a ronda matinal à tua volta,
vejo-te envolto em papel de pedra,
e tudo o que quero é atirar-te ao rio.
Mas tu flutuas.

20130115

Irresponsabilidade meditada
sabe a água salgada
e feridas nos pés
de pisar o risco.


Eu dei as mãos a pensar em cada dedo que te ia roubar.
Não me servem os anéis a mim.








20121128

Solidez vem de solidão.

Pertencer a lado nenhum
dá-te a liberdade
de ser mais que um.
Ter diferentes casas,
diferentes caras,
trocar o norte pelo sul
sem ninguém se aperceber
que tu estás só,
a tentar pertencer.

20121102



A minha ferida está mais aberta que a tua,
vai ficar para sempre.
Eu não esqueço que guardaste o meu tempo
para eu depois usar,
para eu depois gastar,
todo o tempo,
a curar.

20120831

Efervescência.

Corro livre em direcção ao mar,
Trago a morte no pé esquerdo.
Renasço no pé direito.

A areia enterra-me os olhos,
e eu fico morta,
despojada na espuma que me cobre.
Desfaço-me em ondas. 

Ouço o teu nome no fim do mar
e rebento.


Sou vaga.

20120802

Julguei-te a imortalidade
escondida,
por detrás dessa tua pele velha,
dessas tuas mãos,
já ásperas de tanto agarrar a vida.

E o teu cheiro,
que é o mesmo cheiro
de quando a chuva bate na terra,
traz-me a infância de volta.

E o teu colo,
lembra-me o calor das três da tarde,
e as sestas de verão,
em que eu e tu fingíamos dormir,
e era ali,
debaixo do sol,
que sonhavas.

Ensina-me a ser contínua,
a não fazer pausas no amor que tenho à vida;
a acreditar na água da fonte.

Avó,
ensina-me a não ver poesia.