20150706
Eu não sei o que fazer
Vejo a tua bandeira ao longe,
da minha janela,
vejo-a da Liberdade,
a acenar-me,
não sei se um adeus
se um fica por favor,
mas acena-me Portugal.
Lá do alto.
E eu não sei que fazer.
da minha janela,
vejo-a da Liberdade,
a acenar-me,
não sei se um adeus
se um fica por favor,
mas acena-me Portugal.
Lá do alto.
E eu não sei que fazer.
20150602
4 dimensões
Encontrei-te.
Esperei tanto por ti,
e agora já não encho o rio
com aquela água triste.
Já não me saem as palavras que saíam antes
Se antes era a escrever que me entendia a mim
agora o que escrever aqui,
será pouco ou nada
para explicar o que me prende a ti.
Como um ar leve e viscoso,
se é que isso é possível,
que me prende e dá asas,
tudo ao mesmo tempo.
A pessoa que inventa as palavras,
esqueceu-se do nome desta sensação.
É uma plenitude mais quente,
um conforto mais promíscuo,
como se os dois corpos se fundíssem.
Uma linguagem que não se fala,
sei o que dizes, mesmo no escuro,
É uma espécie de mística que orbita,
que me enebria,
e me faz perder a noção dos limites do meu próprio corpo.
E para nós nunca é tarde, nem nunca é cedo,
tudo é urgente,
e no nosso mundo,
voamos sincronizados,
nestas quatro dimensões que vivemos
e ainda teremos tempo de criar mais umas quantas.
20140623
oh cuidado,
que hoje a gente não morreu na praia
e andámos em bicos de pés para não incomodar os bichos
mas são quase onze da noite e não há hora de chegares a casa
logo hoje que o jantar era o refugado que aprendi da avó
e não venhas a cuspir flores da boca
que eu hoje podei o meu jardim
e não te vi por lá.
E agora são mesmo onze da noite
e não entraste por cá.
Deixei queimar o jantar.
20140622
a mulher é desfeita,
outra vez.
e amanhã não vai ser composta
diz todos os dias o bom dia que a levanta da cama
como se a noite lhe juntasse as peças
mas não,
com a boca a saber a ferro
tudo o que diz é áspero.
o homem nunca saberá que as palavras que diz
entram nos ouvidos da mulher
como espinhos da flor a rasgar a pele.
a mulher desfaz-se e adormece numa cama de flores.
20140531
20140406
Baile de Lisboa
É um dia e são todos os dias,
aquelas pedras largas,
escorregadias,
sujas,
das coisas que a água da chuva não lava.
O cheiro da peixaria
que me recorda que ainda é manhã cedo
e os meus órgãos ainda dormem.
"It's a quiet place" é o que ouço de uns recém chegados.
O meu lugar não é aqui,
é a umas milhas de distância,
onde balanço à velocidade da lua
e o silêncio é quieto.
Ainda não me habituei a ti Lisboa.
Estás velha e eu não sei cuidar de ti.
Não sei as músicas do teu tempo de moça,
nem sei esperar pelos teus bailes
e eu só queria dançar.
20140203
Casa velha
No dia em que eu disser tudo o que tenho para dizer, não sejam surdos os ouvidos - as pessoas nunca são surdas. Mesmo que seja em vão, percebam que em mim tudo estremece facilmente, sou como a janela velha, da casa ainda mais velha que abana com o vento. É que tudo em mim se liga e intersecta, todas as palavras que eu apanho, guardo-as e remexo-as vezes sem conta. E essas palavras ligam-se àquelas palavras que estão a apodrecer aqui dentro e atropelam-me a cabeça em círculos viciosos e viciantes a uma velocidade extraordinariamente rápida. Mais rápida ainda. Não há música para as embalar e as conexões fogem delas próprias, escondidas na casa velha à espera que esse dia chegue.
20140124
Heaven couldn’t wait for you.
Há um frio nos meus lábios que não desaparece,
que não aquece.
Um frio irrefutável
de perda,
de saudade do lume.
O olhar indecifrável,
que provavelmente já nada dizia.
Algo te
esperava e tiveste de ir.
20140104
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